»
theme ©
O que evidencia essa pena dor que me alimenta, são os orvalhos tristes que se lançam para a morte a cada entardecer, quando sinto a brisa suave do prelúdio da noite, indicar a ausência do seu corpo ao meu lado, perpetuando aquele vazio que não se contém em ficar apenas dentro de mim, espalhando-se por meus olhos, correndo pela ponta da minha língua umedecendo os lábios que anseiam por você aqui, em mim. São longas e tristes horas cinzentas, perdida em uma névoa que não se dissipa diante meus olhos, tornando-se cada vez mais densa com o levar dos dias, alojando-se entre minhas flores, meus canaviais de felicidade, que não mais frutificam meu eu interior, somente existem espalhados por um território abandonado por você. Eu vou me despedindo da luz do dia, saudando com receio a noite que sempre desperta as dores mais profundas, como se arrancasse em toques violentos a essência da minha existência, e soprasse para o vento. E como andorinhas negras, vão cortando o céu, mergulhando na névoa que cega meus olhos ainda molhados.
- E o nosso amor são como ondas que anseiam despertar a areia da praia, com seus toques violentos que jamais contradizem a necessidade que ecoa do oceano. Eu acredito fielmente, meu amor, que as ondas são braços que acariciam o corpo debochado da praia.
- Então é como se meu corpo fosse a areia da praia que mesmo pisoteada por estranhos pés pesados de tanto caminhar, tenho meu refúgio no mar? – perguntei meio desnorteada por manter meus olhos, e quase toda a minha atenção, no oásis dos olhos angelicais de Rafael.
- De fato. Mas eu não sou seu refúgio. – contrariou-me.
- Não? – tomei a pergunta com um sobressalto.
- Não. – disse – Refúgios servem para quem pretende se esconder de algo ou alguém, talvez até mesmo de um sentimento. Refúgios possuem datas de validade, quando a pessoa se sente forte o suficiente acaba esquecendo o refúgio. – respondeu Rafael com um tom acima do normal, como se dedicasse a um discurso que salvaria uma pátria de uma guerra iminente. Seus olhos cintilavam algo que não conseguia decifrar e isso, como sempre, furtava meu ar como uma facilidade estranhamente peculiar. Eu permanecia embriagada em seus olhos, enquanto suas mãos navegavam sobre minha pele, levando-me ao encontro das ondas do mar que discutíamos.
- Você jamais será apenas um refúgio. – disse, por fim, satisfeita por entender a lógica das suas palavras.
- Exatamente – concordou polidamente. – Eu jamais serei seu refúgio quando o meu amor por você é um oceano, uma cápsula de um cometa ainda distante. Eu sou a parte concreta da sua vida, ao passo que você se tornou tudo em mim.
- Como se não houvesse mais névoa em nós. – completei ruborizada.
- Como se não houvesse mais névoa em nós. – repetiu ele, deixando suas mãos formarem uma trilha de arrepios em minha pele por debaixo do meu vestido. Mais uma vez estava sendo afastada do mundo para ser capaz de mergulhar completamente em nosso amor.
Olhei-o com tanta ternura, e segundo a forma que me olhou de volta, tive a certeza que Rafael percebeu em meu olhar o mais devoto sentimento que dedicava somente a ele. Toda a minha existência se resumia em ser somente dele, em fazer dos nossos dias eternos laços de amor. Não havia nenhuma parte em mim que poderia hesitar enquanto estivesse em seus braços, olhando aqueles olhos verdes que faziam meu coração parar ou pulsar incontrolavelmente. Eu o pertencia.
Você é meu porto, onde as lamentações não possuem espaços, tampouco permite que alguma nuvem mais carregada de tristeza se dissolva sobre nós. Você exala aquela constante certeza que juntos somos capazes de mudar o curso de um rio ou até a rotação dos planetas. Estar ao seu lado não apenas abriga a certeza que sou abençoado, mas inteiramente responsável por amar um milagre que transita entre meros mortais, que nem sempre entendem a dimensão da sua importância – pelo menos pra mim. Eu tento inúmeras vezes me adaptar com a forma que você predestina os holocaustos dentro de mim, mas sempre sou dominado pela surpresa de mais uma vez, me tornar refém de qualquer centímetro de palavra dita ou escrita por você.
É como se todos os cosmos das minhas memórias e sensações corressem de encontro ao rufar dos seus encantos, dos seus laços de menina. E me perdoe se ando a lhe ver como uma desprotegida menina; não ouso, de forma alguma, manifestar a certeza que és uma mulher, exceto quando se encontra com a minha parte mais inquietante todas as vezes que penso em sonhar. Não me prolongo em palavras, pois as deixo livres para quem sabe domá-las, de tal forma, aceito ser essa partitura rabiscada de qualquer jeito, com uma canção antiga composta somente para louvar a sua existência.
Tento me ater aos pontos reais de nós dois, mas sou tentado a dizer que se por algum descuido do destino ou por preguiça do mesmo, isso não for amor, acredito que estamos sendo vítimas de uma experiência em busca de um sentimento maior do que esse tão clichê que ainda muitos de nós desconhecemos.
Por fim, entendo tão simplesmente que isso, sem dúvida, é amor, uma combinação tão simples e equilibrada que nos norteia a sensações que apenas explodem em nós, como fogos de artifícios que demonstram o baile dos nossos sentimentos, da burguesia audaciosa do nosso eterno e doce amor.